domingo, 13 de dezembro de 2009

OS CHEIROS DO NATAL



Acordo cedo e saio a caminhar pela casa. Entro na sala de estar, que ainda tem os destroços da festa. Papel de embrulho descartado, restos da algazarra que fizemos abrindo os presentes na noite anterior. Os cheiros da festa também ainda estão no ar. Bebida, peru assado. Lembro que os presentes também tinham cheiro. Bola de futebol nova, por exemplo. As bolas eram de couro mesmo, com a cor natural e o cheiro do couro, e com cadarço. Você não sabia se já saía chutando a bola ou se guardava aquela preciosidade à salvo de chutes e arranhões, só para cheirar. Lembro que no mesmo Natal em que ganhei minha primeira bola de tamanho oficial ganhei outro presente: um kit com uma estrela de xerife, um revólver, um cinturão de caubói com coldre e um cilindro cheio de fitas de espoletas. Colocava-se uma fita de espoletas no revólver e acionava-se o gatilho, fazendo estourar as espoletas. Outro cheiro inesquecível do Natal, o de espoleta recém-deflagrada. Sem saber escolher entre um presente e outro, eu afivelei o cinturão (com babados no coldre) em torno do corpo franzino e saí abraçado com a bola e dando tiros, iniciando uma carreira inédita de jogador de futebol caubói, até a mãe ordenarque parasse porque ninguém conseguia conversar na sala. E foi nesse Natal que conheci o Papai Noel.


Tinham anunciado que naquele ano receberíamos o Papai Noel em casa.


Ele não deixaria apenas os nossos presentes, misteriosamente, como das outras vezes. Apareceria. Em pessoa! E à noite lá estava o Papai Noel batendo na nossa porta, e sendo recebido por mim, minha irmã, um primo e várias crianças da vizinhança, todos de boca aberta. Era ele mesmo, não havia dúvida. A roupa vermelha grossa, o gorro, a barba branca, as bochechas rosadas e o saco. O maravilhoso saco, de dentro do qual tirou nossos presentes - a bola de futebol, o revólver de espoleta, como ele sabia que era o que eu queria? Depois deu tapinhas na cabeça de cada um, disse qualquer coisa e desapareceu. Mais tarde entrei na cozinha e dei com o Papai Noel sentado, conversando com a cozinheira e tomando uma cerveja. Tinha tirado a máscara. Reconheci a sua cara suada: era o Bataclan, uma figura folclórica de Porto Alegre, um negro que fazia propaganda - "reclame", chamava-se então - na rua. Não lembro como eu racionalizei a revelação. Se deixei de acreditar no Papai Noel ali mesmo, se passei a acreditar que o Papai Noel, quando não estava em serviço, era o Bataclan, e vice-versa. Talvez não tenha concluído nada. O bom de ser criança é que a gente não precisa racionalizar. (Luis Fernando Veríssimo)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

QUANDO A PREFERÊNCIA SEXUAL CONTA MAIS QUE O CARÁTER

Há muito tempo não posto nada... Um pouco por preguiça, por ter muitas coisas pra fazer... mas a verdade mesmo é que só posto quando algo me chama a atenção e me deixa, ou muito brava e indignada ou muito feliz e orgulhosa. Geralmente o que me provoca tais sentimentos são as ações do ser humano, e isso me inclui, com certeza. Mas, é sempre mais fácil enxergar o que os outros fazem de bom ou ruim...

Se faço algo bom, não acho que mereça postagem, pois não fiz mais do que a minha obrigação e, se fiz algo ruim, talvez não perceba até que alguém chegue e fale (e nem todo mundo tem coragem de apontar os erros da gente, assim, na cara dura...rs).
Hoje, soube da explosão de uma bomba, que, por sinal, era coisa certa. Dilemas do ser humano... Na verdade, não considero uma bomba e nem mesmo um dilema. Talvez, por não fazer parte da história ou por realmente não ter nenhum preconceito.

Uma pessoa muito amada, que sofria muito até então com o que considera um problema, não suportando mais a angústia e a pressão, resolveu encarar o mundo, mais precisamente a família e expor sua preferência sexual.

Pelo que fiquei sabendo, foi um choque, muitas lágrimas, muito desgosto, muito lamento... Tem os que realmente não se surpreenderam e tentam ajudar, tem os que fingem que aceitam pra passar por bonzinhos e os que realmente não aceitam.

Os primeiros vêem as coisas com naturalidade e acham que nada de mais aconteceu, que isso acontece com qualquer um e que a vida continua e nada mudou.

Os tais bonzinhos, encaram como uma doença contagiosa, parecem ter medo de chegar muito perto, dizem que não vêem nada de errado, mas na verdade, dão graças a Deus por não ter acontecido com o filho deles.

Os últimos, são os protagonistas, os preconceituosos, os que sempre apontaram pro filho dos outros e lastimavam a má sorte deles por terem um filho ou filha assim.

O caráter do réu (porque passa a ser réu aquele que prefere a verdade a mentir, a dissimular, a enganar) é esquecido. O caráter já não conta... o espírito bom e iluminado, o coração bom, isso já passa a não ter tanta importância...

Como o ser humano é hipócrita! Prefere esconder debaixo do tapete e fingir que não existe porque é mais cômodo pra ele. Preocupação com o drama do outro? Pra que? Foi ele quem quis isso...
Será? Quem quer isso? Quem escolhe ser diferente? Quem é louco o suficiente pra afrontar uma sociedade preconceituosa, sabendo que corre o risco de ser colocado à margem da sociedade pelo simples fato de ser diferente?!

Isso me faz lembrar algo que li escrito por Paulo Coelho no livro Maktub e faço questão de reproduzir aqui:


“Na véspera de Natal, o viajante e sua mulher faziam um balanço do ano que estava terminando.
Durante o jantar no único restaurante de um povoado nos Pireneus, o viajante começou a reclamar de algo que não tinha ocorrido como desejava.
A mulher olhava firme a árvore de Natal que enfeitava o restaurante. O viajante achou que ela não estava interessada na conversa, e mudou de assunto.
- Bela a iluminação desta árvore - disse.
- É verdade - respondeu a mulher. - Mas, se você reparar bem, no meio destas dezenas de lâmpadas há uma que esta queimada. Mas parece que, em vez de ver o ano como dezenas de Bençãos que brilham, você esta fixando seu olhar na única lâmpada que não iluminou nada.”


É isso!
A maioria das pessoas fixam o olhar na única lâmpada apagada esquecendo-se de olhar o brilho das que estão acesas, das que realmente fazem a diferença...


É pra se pensar.

É pra refletir e ver que não somos nada. Quem ninguém é melhor do que ninguém. Que cada um é uma árvore e que tem suas lâmpadas acesas e também as apagadas. É preciso dar importância ao que realmente tem importância...

Um beijo a todos os que me visitam e têm a paciência para as minhas longas ausências.

sábado, 25 de abril de 2009

TANK MAN


O chinês solitário que foi clicado quando tentava impedir um massacre, que se posicionou na frente de uma fila de tanques, nunca foi identificado, nunca ninguém teve a curiosidade em saber o porquê daquele ato, mesmo a foto ter sido premiada e ficado famosa.

Talvez se tivesse tirado a roupa, ou entrado em uma universidade atirando em outros jovens, as pessoas teriam se interessado mais por ele...

Triste isto.

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